24.8.08

Ent[R]evista: Henrique Magalhães





Por Jesuino André*

Professor Henrique Magalhães é Doutor em Comunicação e um dos maiores especialistas no país e no mundo em Fanzines e Quadrinhos. Esse discreto paraibano de estatura baixa, de falar manso e pausado é o fundador e editor da Marca de Fantasia e desde seu começo em 1995 vem publicando livros abordando esse universo. É autor de livros conhecidos como "O Que é Fanzine" (1993) e o "Rebuliço Apaixonante dos Fanzines" (2003) e das clássicas tiras "Maria" publicadas em jornal, além de ser o criador da Gibiteca Henfil na cidade de João Pessoa.
Ano passado durante o Festival Internacional de Quadrinhos-FIG, realizado em Belo Horizonte (MG), foi chamado de herói pelo roteirista e editor Wellington Srbek. O feliz substantivo cai bem em Henrique por sua dedicação e experiência ao tema. Embora seja de uma modéstia ímpar, seu trabalho proporciona expansão da comunicação, no imprimir razão nessas modernas artes/veículos e de academicamente orientar novas mentes nesse meio. Conversamos com o professor Henrique Magalhães que nos conta com exclusividade sobre suas atividades.

Primeiro de tudo, o que levou o Senhor a ter interesse e a estudar sobre os Fanzines e Quadrinhos? O que lhe moveu a isso?
Decidi estudar os fanzines no final de minha graduação em Jornalismo na UFPB, em 1983. Naquele momento havia uma ascensão da produção de fanzines no país e percebi que o tema era interessante como objeto de estudo. Por outro lado, eu mesmo estava envolvido com a produção independente, editando minhas próprias revistas com a personagem de quadrinhos Maria. Por conta disso, eu tinha contato com vários editores e produtores de fanzines, o que me facilitou a pesquisa.Os quadrinhos são uma paixão de infância e que permanece até hoje. Com minha coleção criei a Gibiteca Henfil, que funciona desde 1990, a qual cresceu enormemente graças às doações de leitores e amigos. Nos quadrinhos encontrei minha maior força de expressão, revelando-me ao mundo e refletindo sobre os conflitos quotidianos.

Como o Senhor avalia o mercado de Quadrinhos em nosso país?
Temos grandes autores e muitas novas promessas que infelizmente não podem se desenvolver por causa da mesquinhez do mercado. Nosso mercado editorial no campo dos quadrinhos é medíocre e oportunista, investe só no que já foi consagrado fora, o que não quer dizer que investa em qualidade. Com exceção de Maurício de Sousa, nenhum autor brasileiro consegue se firmar por falta de uma política editorial conseqüente. Os editores preferem repetir as fórmulas manjadas de super-heróis e agora de mangás, dando as costas à originalidade dos autores nacionais. Isto por causa do lucro fácil e garantido. Sem risco não há inovação.

Senhor poderia fazer um breviário sobre a importância dos Fanzines e Quadrinhos para a Cultura de um modo geral?
Os Quadrinhos são hoje, merecidamente, considerados uma arte. Eles possuem linguagem própria, além de ser um excepcional meio de comunicação. Cada vez mais se estuda os Quadrinhos nas universidades, abordando seus múltiplos aspectos criativos e lingüísticos. Apesar da predominância cada vez maior dos meios eletrônicos, a produção de quadrinhos não pára de se renovar e atrair novos públicos.Os fanzines são a resistência e o campo de experimentação de qualquer linguagem artística. São particularmente utilizados pelos autores de quadrinhos, pois, como estes, se tratam de artes gráficas. Os fanzines representam o espaço ideal para se mostrar o trabalho frente à inacessibilidade do mercado. Podem servir como veículo circunstancial, mas, e principalmente, servem como objeto em si, como exercício e laboratório, além de promover o intercâmbio de idéias.

A cultura de Quadrinhos e Fanzines é bastante representativa em paises como Estados Unidos, França e Espanha por exemplo, cada qual com suas peculiaridades. Como é que nosso país se situa entre esse meio internacional?
Para Philippe Morin, editor do PLG, o mais representativo fanzine francês de quadrinhos, o Brasil é um grande celeiro dessas produções. Em toda parte os fanzines são um complemento ou uma resistência ao cerceamento do mercado. No Brasil é a única maneira de se mostrar, de tornar público o trabalho. Talvez, por isso, nós tenhamos uma enorme produção de fanzines. Ao mesmo tempo eles são uma força produtora e um reflexo da pequenez do mercado.

É sabido que temos poucos estudiosos e pouca literatura à respeito do assunto em nosso país. Por que isso acontece?
Esse é outro aspecto do mercado editorial que é preciso registrar. Não é só na edição de quadrinhos que temos deficiência. O mercado livresco de modo geral também é muito restritivo aos autores nacionais. A produção editorial de literatura especializada, então, dá pouco espaço aos quadrinhos e quase nenhum aos estudos sobre fanzines. Ainda há preconceito e falta de visão sobre a importância dos trabalhos acadêmicos sobre esses temas, que, paradoxalmente, só crescem na produção acadêmica.

O Senhor criou a editora Marca de Fantasia, que já tem mais de dez anos publicando obras importantes e é resultado de muito esforço pessoal. Fale-nos o que significa a editora para o Senhor e sobre as atividades da editora.
A editora é, para mim, um grande exercício. Com ela faço fanzines, revistas, livros e álbuns de quadrinhos, editando tudo o que acho interessante e que, de outra forma, certamente não viria a público. Não criei a editora apenas para editar meus trabalhos. Isso eu já fazia desde que comecei a publicar quadrinhos nos jornais. Pretendo com ela dar visibilidade aos novos autores, estudar e resgatar a obra dos mestres, refletir sobre a linguagem dos quadrinhos. Embora seja uma editora independente, de curto alcance, por se dirigir a um público especializado ela tem alcançado grande repercussão, em particular no meio acadêmico.

Quais os planos da Marca de Fantasia ao longo deste ano?
Tenho uma quantidade enorme de originais a editar e não param de chegar novas propostas e projetos de parcerias. Quero manter o ritmo que venho dando à editora de publicar pelo menos um título por mês, que é facilmente ultrapassado, e profissionalizar cada vez mais a produção para que ela atinja um público cada vez maior.
* Entrevista publicada originalmente no site Ladonorte

2 comentários:

Renato disse...

Foda a entrevista. Gostei muito.
Quadrinho é realmente uma arte, sempre fico de toca com as coisas que encontro. Já faz algum tempo me deparei com uma interpretação de peter kuper para alguns contos kafka. Impossivel não chamar aquilo ali de arte.

olavo disse...

inquestionável